A doutrina do dízimo tem suas raízes no judaísmo, na Lei de Moisés. O dízimo é uma prática ainda mais antiga, comum entre diversos povos. Egípcios, babilônios e até chineses ofereciam a décima parte de suas riquezas a divindades, reis ou autoridades.
Um exemplo bíblico anterior à Lei de Moisés é Abraão, que deu dízimos a Melquisedeque. Essa prática já era culturalmente difundida na época. Mais tarde, foi incorporada na Lei Mosaica, conforme vemos em Levítico 27, Números 18 e Deuteronômio 14. No contexto do Antigo Testamento, o dízimo tinha três propósitos principais:
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Sustento do culto em Israel:
A tribo de Levi não recebeu terras, pois foi designada para cuidar do serviço religioso. Os dízimos das demais tribos sustentavam os levitas e o funcionamento do templo, incluindo sacrifícios e rituais.
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Assistência aos necessitados:
Parte dos dízimos era destinada aos órfãos, viúvas e estrangeiros. Essa função social do dízimo demonstrava o cuidado de Deus pelos mais vulneráveis.
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Provisão para celebrações:
Conforme Deuteronômio 14, os dízimos também eram usados em festas de gratidão a Deus. O povo levava alimentos ao templo para comemorar. Se a viagem fosse longa, era permitido vender os produtos, levar o dinheiro e comprar o necessário ao chegar ao templo, promovendo uma celebração diante do Senhor.
No Novo Testamento, Jesus menciona o dízimo em Mateus 23:23, ao repreender os fariseus por serem rigorosos em dizimar pequenos itens, como hortelã, endro e cominho, mas negligenciarem a justiça, a misericórdia e a fé. Jesus os exorta a fazer ambas as coisas: serem fiéis no dízimo e praticarem o essencial da lei. Contudo, Ele estava falando dentro do contexto judaico de sua época, não estabelecendo uma regra para os cristãos.
Após a ressurreição de Cristo, o dízimo não é mais mencionado como prática obrigatória entre os seguidores de Jesus. Isso ocorre porque:
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O templo foi destruído:
Jesus predisse a destruição do templo de Jerusalém (João 2:19-21), e Ele mesmo se tornou o verdadeiro templo. Agora, a igreja é composta por "pedras vivas" (1 Pedro 2:5).
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O sacerdócio foi transformado:
Não há mais sacerdotes levíticos, pois Jesus é o sumo sacerdote perfeito, e Seu sacrifício é definitivo.
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Adoração como um estilo de vida:
A adoração cristã não está vinculada a um local específico. Tudo o que fazemos deve glorificar a Deus (1 Coríntios 10:31).
Se alguém nos tempos dos apóstolos perguntasse sobre o dízimo, provavelmente ouviria algo como: “Não há mais um templo nem sacerdotes para recebê-lo. Use seus recursos para ajudar os pobres, sustentar sua família e celebrar a Deus com gratidão.”
Infelizmente, muitos pastores e líderes ainda recorrem a textos da Antiga Aliança, que eram apenas sombras do que haveria de vir, para sustentar a obrigatoriedade do dízimo nos dias atuais. Essa prática ignora o ensino claro do Novo Testamento de que essas sombras foram cumpridas em Cristo (Colossenses 2:16-17; Hebreus 10:1). Ao fazerem isso, promovem uma visão distorcida da graça, reintroduzindo aspectos da Lei que já foram cumpridos na cruz e impondo pesos sobre os fiéis que Cristo nunca ordenou.
A essência do dízimo no Antigo Testamento era reconhecer que tudo vem de Deus. No Novo Testamento, essa essência se transforma em um chamado à generosidade voluntária, sem imposições, com alegria e amor (2 Coríntios 9:7). Usar textos antigos fora de seu contexto para justificar práticas atuais é não apenas um erro teológico, mas também uma forma de enfraquecer a compreensão do verdadeiro evangelho da graça.
Portanto, o dízimo, conforme praticado no Antigo Testamento, estava relacionado à Lei de Moisés e ao culto no templo. Hoje, nós somos o templo do Espírito Santo e somos chamados a viver como mordomos fiéis, contribuindo voluntariamente e com gratidão, para glorificar a Deus e servir ao próximo.